Gosto de pisar no desconhecido às vezes e, no tocante às minhas práticas cinéfilas, tenho um hábito que caminha nessa direção: de vez em quando, escolher meio que a esmo alguma dentre as várias salas de um cinema e entrar, sem saber de quem é nem como é o filme. Fiz isso duas vezes no ano passado, tendo na primeira vez descoberto que havia entrado numa longa sessão, de vários curta-metragens do cinema lésbico. Já na segunda vez o filme era “Scoop”, que eu – “oh, que horror!” – juro não saber que era do Woody Allen: só descobri quando o vi, na cena em que surgiu nas telas fazendo o papel do mágico. Contudo, salvo as cenas iniciais, onde apareciam passageiros da barca que seguia para o Inferno, no mais não gostei do filme e fiquei com saudades, daquele Woody Allen de outros tempos.
Nesse sentido, “Vicky, Cristina, Barcelona” me fez relembrar aquele Woody Allen de outros carnavais: adorei! O filme é leve, pra lá de humorado, gostozinho de assistir. De quebra, também serve de ótimo roteiro turístico para quem for a Barcelona. Que, depois de e justamente por haver assistido ao filme, perdi o interesse em conhecer; pois, além dos estereótipos amorosos, Allen desconstrói e esculacha, também, com muitos outros estereótipos, a começar com os turísticos. Ironizando os clichês, Allen não poupa “lugarzinhos” (cafés, restaurantes…) tronitroados pela mídia como charmosos, zomba dos estereótipos “cool” e, dentro da linha “cool”, os “cool” [pseudo] intelectuais. Ele nos mostra uma Barcelona não apenas com paisagens dignas de prospectos de agências de viagens mas, mais que isso, focadas no segmento de mercado formado por estudantes e intelectuais. Na tela uma sucessão de becos apertados e freqüentados por “pitorescas” prostitutas, bêbados, barzinhos “transados” repletos de artistas “descolados” e estudantes porrauloucas, galerias de arte e por aí vai.
O eixo central do filme, todavia, gravita em torno das peripécias amorosas das personagens Vicky e Cristina. Inicialmente elas vivem um triângulo amoroso com o artista plástico Juan Antonio e, ao longo do filme, novas personagens, sejam elas “caretas” ou “porraloucas”, vão entrando em cena. Nesse movimento, Allen explora todas as possibilidades mais conhecidas, no tocante aos clichês mais usuais, associados aos relacionamentos amorosos e eróticos. E caçoa de todos, clichê por clichê: no final não sobra nenhum clichê em pé, sendo um a um, ao longo do filme, desconstruído com um humor bastante agradável. Não vou mais comentar mais o filme: deixo, a quem lê estas linhas, a incumbência de ir ao cinema e tirar as suas próprias conclusões. No entanto, antes de terminar este post, não resisto à tentação de reproduzir, aqui, alguns trechinhos da análise sobre o filme feita pelo psicanalista Contardo Calligaris, enfocando a dimensão dos relacionamentos ali constelados:
1) “Os casais que se amam de paixão, cujos parceiros parecem feitos um para o outro, em regra, acabam tentando se matar (…).”
2)”Por sorte ou não, o amor-paixão é raro. A maioria de nós vive relações menos ´interessantes´e menos fatais – relações em que a gente se preocupa em criar os filhos, decorar a casa, ganhar um dinheiro ou jogar golfe [...]. Detalhe: como o amor-paixão é um ideal cultural, não é preciso ter atravessado a experiência da paixão para idealizá-la (…).”
3) “Os que parecem não idealizar o amor-paixão passam o tempo se protegendo contra ele. Deve ser por isso que a `normalidade`amorosa pode ser insuportavelmente chata: porque ela exige a construção esforçada de defesas contra a paixão – argumentos morais e sociais, sempre mais ´razoáveis´do que racionais (…).”
4. “A paixão não é uma coisa que a gente possa encontrar saindo pelo mundo como um turista da vida [...], pois não basta esbarrar na paixão; ainda é preciso encará-la quando ela se apresenta.”
(CALLIGARIS, Contardo: Folha de São Paulo, caderno “Ilustrada”, 20/11/2008)
Escrito por João Baptista Soares de Faria Lago 
Escrito por João Baptista Soares de Faria Lago 
Escrito por João Baptista Soares de Faria Lago