Vicky, Cristina, Barcelona

Novembro 24, 2008

Gosto de pisar no desconhecido às vezes e, no tocante às minhas práticas cinéfilas, tenho um hábito que caminha nessa direção: de vez em quando, escolher meio que a esmo alguma dentre as várias salas de um cinema e entrar, sem saber de quem é nem como é o filme. Fiz isso duas vezes no ano passado, tendo na primeira vez descoberto que havia entrado numa longa sessão, de vários curta-metragens do cinema lésbico. Já na segunda vez o filme era “Scoop”, que eu – “oh, que horror!” – juro não saber que era do Woody Allen: só descobri quando o vi, na cena em que surgiu nas telas fazendo o papel do mágico. Contudo, salvo as cenas iniciais, onde apareciam passageiros da barca que seguia para o Inferno, no mais não gostei do filme e fiquei com saudades, daquele Woody Allen de outros tempos.

Nesse sentido, “Vicky, Cristina, Barcelona” me fez relembrar aquele Woody Allen de outros carnavais: adorei! O filme é leve, pra lá de humorado, gostozinho de assistir. De quebra, também serve de ótimo roteiro turístico para quem for a Barcelona. Que, depois de e justamente por haver assistido ao filme, perdi o interesse em conhecer; pois, além dos estereótipos amorosos, Allen desconstrói e esculacha, também, com muitos outros estereótipos, a começar com os turísticos. Ironizando os clichês, Allen não poupa “lugarzinhos” (cafés, restaurantes…) tronitroados pela mídia como charmosos, zomba dos estereótipos “cool” e, dentro da linha “cool”, os “cool” [pseudo] intelectuais. Ele nos mostra uma Barcelona não apenas com paisagens dignas de prospectos de agências de viagens mas, mais que isso, focadas no segmento de mercado formado por estudantes e intelectuais. Na tela uma sucessão de becos apertados e freqüentados por “pitorescas” prostitutas, bêbados, barzinhos “transados” repletos de artistas “descolados” e estudantes porrauloucas, galerias de arte e por aí vai.

O eixo central do filme, todavia, gravita em torno das peripécias amorosas das personagens Vicky e Cristina. Inicialmente elas vivem um triângulo amoroso com o artista plástico Juan Antonio e, ao longo do filme, novas personagens, sejam elas “caretas” ou “porraloucas”, vão entrando em cena. Nesse movimento, Allen explora todas as possibilidades mais conhecidas, no tocante aos clichês mais usuais, associados aos relacionamentos amorosos e eróticos. E caçoa de todos, clichê por clichê: no final não sobra nenhum clichê em pé, sendo um a um, ao longo do filme, desconstruído com um humor bastante agradável. Não vou mais comentar mais o filme: deixo, a quem lê estas linhas, a incumbência de ir ao cinema e tirar as suas próprias conclusões. No entanto, antes de terminar este post, não resisto à tentação de reproduzir, aqui, alguns trechinhos da análise sobre o filme feita pelo psicanalista Contardo Calligaris, enfocando a dimensão dos relacionamentos ali constelados:

1) “Os casais que se amam de paixão, cujos parceiros parecem feitos um para o outro, em regra, acabam tentando se matar (…).”

2)”Por sorte ou não, o amor-paixão é raro. A maioria de nós vive relações menos ´interessantes´e menos fatais – relações em que a gente se preocupa em criar os filhos, decorar a casa, ganhar um dinheiro ou jogar golfe [...]. Detalhe: como o amor-paixão é um ideal cultural, não é preciso ter atravessado a experiência da paixão para idealizá-la (…).”

3) “Os que parecem não idealizar o amor-paixão passam o tempo se protegendo contra ele. Deve ser por isso que a `normalidade`amorosa pode ser insuportavelmente chata: porque ela exige a construção esforçada de defesas contra a paixão – argumentos morais e sociais, sempre mais ´razoáveis´do que racionais (…).”

4. “A paixão não é uma coisa que a gente possa encontrar saindo pelo mundo como um turista da vida [...], pois não basta esbarrar na paixão; ainda é preciso encará-la quando ela se apresenta.”

(CALLIGARIS, Contardo: Folha de São Paulo, caderno “Ilustrada”, 20/11/2008)


Sobre o Pedantismo

Outubro 23, 2008


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João Baptista Soares de Faria Lago


Há muitos anos atrás, ao ler a Ethica de Spinoza, filósofo luso-holandês do século XVII, deparei-me com um termo que, nos anos seguintes, jamais abandonaria meus circuitos mnemônicos, em decorrência da grande quantidade de situações que, inevitavelmente, me levavam a relembrá-lo: estupidez sapiente. As muitas situações que faziam com que este termo reaflorasse com todo o seu esplendor em minhas recordações, é importante frisar, eram vividas sobretudo nos anos de minha formação acadêmica, envolvendo minha graduação, mestrado e doutorado. Nestas situações, me chamava a atenção algo que parecia ser uma espécie de sub-produto da estupidez sapiente: o pedantismo, sobre o qual me arriscarei aqui a tecer algumas elocubrações. Pedantismo que, longe de ser a exceção, era a regra quotidiana; pedantismo que, além de admiração, gerava notas e créditos acadêmicos, alavancava reputações e rendia pareceres favoráveis a publicações, além de outros benefícios.

Entretanto, antes de prosseguir e para efeitos didáticos em relação a quem lê estas linhas, gostaria de definir, de um modo bem simples e até mesmo coloquial (por favor: coloquial apenas neste parágrafo, já que também tenho lá minha dose de pedantismo, de forma que utilizarei uma linguagem mais distinta, nos parágrafos seguintes), o que se passa pela minha cabeça, em relação ao termo pedante, no contexto deste post. Pedante é, digamos assim, quando você se depara com uma ou mais pessoas num contexto acadêmico, utilizando um palavreado complicado e empolado, geralmente pouco inteligível, para tentar explicar fatos, fenômenos e processos da realidade, que poderiam ser muito bem explicados, através de um discurso e de uma linguagem mais simples e, principalmente, fácil de entender a qualquer mortal regularmente matriculado. É utilizado de um modo mais intenso, principalmente, por seres acadêmicos que possuem uma fixação patológica numa determinada teoria à qual costumam aderir com o mesmo fanatismo de alguém que, depois de ir parar “no fundo do poço”, adere ferozmente à seita religiosa que o salvou da perdição. Não é recomendável nesse sentido convidar dois pedantes dogmáticos para a mesma mesa de bar, pois o espetáculo poderá ser análogo ao de uma briga de galo, com um tentando desesperadamente desqualificar o discurso do outro, até a morte. Além dos aspectos que mencionarei nos parágrafos seguintes, uma outra característica do pedantismo é servir de instrumento fálico, de auto-afirmação intelectual. No meio acadêmico, diria que personalidades fálicas, quer se trate de machões ou de mulheres histéricas, amam o pedantismo, visto ser este último um instrumento valioso para a obtenção de seu intento: ter os holofotes da platéia convergidos para si. E, gozo supremo, a aprovação do mestre (na mesma proporção em que este justamente não aprovaria os demais colegas, por não conseguirem ser tão pedantes quanto); caso em que este inconscientemente estaria ocupando, na psique do(a) pedante, o lugar de um pai ou uma mãe que estaria lhe dando preferência, ao passo que ignorando os outros irmãos. Enfim: para explicar coisas que poderiam ser ditas através de palavras e frases muito simples e que qualquer um entenderia, os pedantes articulam todo um complexo e ininteligível discurso repleto de palavras e termos tão esquisitos quanto herméticos, fazendo uma tremenda duma pose.

Deixando agora o discurso coloquial, por que o pedantismo possuía e possui, uma importância tão relevante em nossa vida acadêmica? Antes de mais nada, diria que as caracteríscas destas e daquelas formas de pedantismo seriam como uma espécie de ethos e atribuiriam, ao seu “portador”, o status não apenas de pertencerem e partilharem, dos valores e características de uma determinada panelinha teórico/intelectual em qualquer um dos campos do saber mas, também, o seu posicionamento hierárquico: a princípio, quanto mais pedantemente estiver articulado o discurso, maior tende a ser o status do emissor do palavrório. E, numa manifestação ainda mais refinada de pedantismo, sinalizar através de sua linguagem que, além de pertencer a uma determinada corrente teórica, seria membro de uma das panelinhas que a representam. Assim o discurso pedante, longe de privilegiar o conteúdo, privilegia, mais que qualquer outra coisa, a forma, acarretando duas conseqüências típicas: em primeiro lugar, um aumento considerável no tamanho do discurso, pois, quanto mais clichês linguageiros possuir, mais estará privilegiando a forma. E, em segundo lugar, um empobrecimento muito grande da própria explicação em si, já que o importante aí é demonstrar a maior quantidade possível de estereótipos discursivos e não, uma maior qualidade de explicitação do real.

O discurso pedante, desta forma, não seria apenas um conjunto de afirmações e tentativas de explicação/explicitação da realidade, através de uma linguagem geralmente incompreensível aos não-pertencentes à sua filiação teórica (posto tratar-se de uma linguagem, por assim analogamente dizer, “criptografada”). Porque, além de sua característica de ininteligibilidade discursiva, o pedantismo também possuiria embutido um aspecto de exclusão, já que ficariam de fora todos os que não conseguissem compreender o referido discurso pedante, isto é: todos os não-integrantes da vertente teórica e/ou da panelinha na qual tal discurso estereotipado foi gerado. Porém, ao mesmo tempo que exclui, o discurso pedante também inclui quem o pratica, habilitando-o a ser considerado, perante uma platéia de leitores e/ou de ouvintes, membro digno de pertencimento, à referida panelinha geradora do discurso. Mas não são apenas os não-integrandes da panelinha ou vertente teórica, que ficariam excluídos. Pois o discurso pedante, ao privilegiar sobretudo a forma em detrimento do conteúdo, termina por excluir, mais que qualquer outra coisa, a própria compreensão dos fatos e processos que pretende explicar/explicitar.

Uma última observação no tocante ao pedantismo, diz respeito à sua intensidade, no Brasil e nos assim chamados “países de Primeiro Mundo”. Em comum, temos o fato de que o pedantismo é universal. No caso das instituições acadêmicas brasileiras, todavia, há algo a ser acrescido: nosso “complexo de vira-lata” (para me valer da expressão cunhada por Nelson Rodrigues) nos levaria a exacerbar ainda mais o pedantismo, no caso em que este for importado de alguma das nossas Metrópoles de Ultramar. Assim, mais que o perteencer a uma determinada corrente teórica, o pedantismo também traria embutido, em seu discurso, uma necessidade de indicar que seríamos seres pertencentes ao “Primeiro Mundo”. Essa necessidade, ao privilegiar ainda mais intensamente características da forma do discurso pedante, em detrimento de seu conteúdo, faria com que o nosso pedantismo consiga ser, muitas vezes, mais pedante que nos países ditos avançados, onde esse discurso foi inicialmente gerado, com repercussões em dois grandes grupos de discursos pedantes dominantes: aqueles que se utilizam do discurso cientificista, mais antenados sobretudo com as tendências academicistas norte-americanas, de um lado, e aqueles que se utilizam de um discurso por assim dizer mais filosófico, por parte dos que mais se identificam a correntes européias.


Como seriam hoje as “engraçadinhas” paulistanas?

Julho 7, 2008

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– João Baptista Soares de Faria Lago


Dia desses, li no jornal uma notícia inusitada: marido PM, enciumado por causa dos e-mails que sua mulher, também PM, recebia, partiu com tudo para cima dela. Saldo da tragédia no dia seguinte, quando a perícia visitou aquele lar conjugal com tudo quebrado dentro, devido ao violento embate corporal entre ambos: os dois terminaram se matando na briga, em decorrência dos ferimentos ocasionados pelos respectivos revólveres. Não tive como não me lembrar de Nelson Rodrigues, que, certamente, teria achado esta tragédia muito inspiradora, para mais uma de suas crônicas. Também me ocorreu, uma indagação: se NR ainda estivesse vivo nestes tempos pós-muderninhos, como seriam suas personagens masculinas e femininas? E uma segunda indagação ainda mais ousada, fruto da minha frustração por ele haver retratado personagens cariocas e, não, paulistanas: como seriam seus romances, crônicas e peças teatrais, se ele, ao invés de carioca (na verdade, era nordestino), fosse paulista? E nos dias atuais?

Teço estas elocubrações porque os dramas vividos pela sua fauna humana eram gerados por um modo coletivo e familiar de produção de subjetividades que, atualmente, encontra-se em declínio: o Patriarcado tradicional. Uma das características centrais daquele modo de subjetivação enquanto matriz estruturadora de psiquismos, residia na glorificação da disciplina, associada à capacidade de se adiar a satisfação imediata dos desejos. Um outro aspecto importante era a existência de determinados ideais bastante rígidos (a palavra dada cuja garantia de seu cumprimento era avalizada pelo fio do bigode, a virgindade e o recato femininos, a honra composta pelos atribuitos que constituíam o que se denominava “pessoa de bem”, etc.) com os quais suas personagens se identificavam conscientemente; ignorando completamente – fazendo questão absoluta de ignorar e, com veemência, negar -, porém, todos as suas dimensões desejantes (fossem o mais sublime amor proibido ou a mais cabeluda perversão), que permaneciam arrochadas em seus universos interiores.

Nesse sentido, característica marcante da obra de NR era esse eterno embate entre estas duas dimensões, conflito muitas vezes descrito em suas personagens através não apenas da violência da irrupção daquilo que era reprimido, mas também através de torturantes angústias e sentimentos de culpa, quando estes conteúdos ameaçavam irromper à consciência .

Os tempos atuais, todavia, são outros: hoje grande parte das famílias possui uma estrutura diferente daquela de uma certa classe-média de décadas atrás, estrutura atual na qual convivem no mesmo espaço a mãe, o segundo marido, os filhos dela com o primeiro marido, mais os filhos com o segundo; são inúmeras as possibilidades combinatórias de novas estruturas familiares, devendo ser inclusive acrescido o fato de termos agora, também, núcleos familiares a partir de casais homossexuais tanto masculinos quanto femininos, com ou sem a adoção de filhos ou, ainda, através das diversas estratégias de produção independente.

Hoje, longe de uma estruturação psíquica alicerçada sobre a então valorizada – e heróica… – capacidade de se adiar eternamento os desejos ou então com tudo auto-reprimi-los, a ordem coletiva dá mostras de valorizar exatamente o contrário. Assim, se nos tempos daquela classe-média moralista que serve de cenário às obras de NR, o esperado era que um pai dissesse algo assim como “meu filho, eu tive que trabalhar duro até poder comprar meu primeiro automóvel aos 50 anos de idade”, atualmente a publicidade usa e abusa da expressão “você merece”: “você merece” [adquirir IMEDIATAMENTE] este apartamento, este carro, esta viagem ao exterior, este celular carézimo e assim sucessivamete. Afora outras transformações, como as conquistas – pelo menos até certo ponto – femininas e, em acréscimo, toda uma re-conceituação do que viria a ser considerado, hoje em dia, “masculino” ou “feminino”.

Em que pese todas as alterações que tivemos daquele antigo modo de estruturação de subjetividades, até chegarmos aos modos atuais, NR e suas personagens estariam hoje mortos em termos de significado? Diria que não, por dois motivos. O primeiro é que, embora aquele modo de subjetivação de meio século atrás tenha sido suplantado por outros, isso não impede que ele continue não apenas existindo como, além disso, ainda bastante presente em grandes bolsões coletivos – e uma única viagem de Metrô entre a Zona Oeste e a Zona Leste em São Paulo no horário de pico, com os ouvidos atentos aos diálogos ao redor, é suficiente para se constatar que aquele modo arcaico e tradicional de subjetivação, ainda pulsa largamente. O segundo motivo é que, nos contextos em que aquele antigo modelo de subjetivação foi substituído por outros mais atuais, isso não impede que milhões de pessoas estejam mergulhadas em angustiantes dramas, conflitos e sofrimentos interiores, gerados exatamente por estes novos modelos. Tentarei escrever algo a esse respeito, num próximo post. Por enquanto, lanço a sementinha da dúvida: como seriam atualmente as “engraçadinhas” de Nelson Rodrigues? Qual seria o equivalente atual daqueles seus maridos e homens “de bem”, eternamente angustiados por não correspoderem aos ideais rígidos de sua época? Será que os novos ideais também não seriam tão rígidos quanto torturantes? Como seriam estes novos ideais e como seriam socialmente percebidos, hoje em dia, os que ousassem afrontá-los? E agora, a cereja do bolo: como seria a versão atualizada dessas personagens rodrigueanas se fossem paulistanas ao invés de cariocas?