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– João Baptista Soares de Faria Lago
Dia desses, li no jornal uma notícia inusitada: marido PM, enciumado por causa dos e-mails que sua mulher, também PM, recebia, partiu com tudo para cima dela. Saldo da tragédia no dia seguinte, quando a perícia visitou aquele lar conjugal com tudo quebrado dentro, devido ao violento embate corporal entre ambos: os dois terminaram se matando na briga, em decorrência dos ferimentos ocasionados pelos respectivos revólveres. Não tive como não me lembrar de Nelson Rodrigues, que, certamente, teria achado esta tragédia muito inspiradora, para mais uma de suas crônicas. Também me ocorreu, uma indagação: se NR ainda estivesse vivo nestes tempos pós-muderninhos, como seriam suas personagens masculinas e femininas? E uma segunda indagação ainda mais ousada, fruto da minha frustração por ele haver retratado personagens cariocas e, não, paulistanas: como seriam seus romances, crônicas e peças teatrais, se ele, ao invés de carioca (na verdade, era nordestino), fosse paulista? E nos dias atuais?
Teço estas elocubrações porque os dramas vividos pela sua fauna humana eram gerados por um modo coletivo e familiar de produção de subjetividades que, atualmente, encontra-se em declínio: o Patriarcado tradicional. Uma das características centrais daquele modo de subjetivação enquanto matriz estruturadora de psiquismos, residia na glorificação da disciplina, associada à capacidade de se adiar a satisfação imediata dos desejos. Um outro aspecto importante era a existência de determinados ideais bastante rígidos (a palavra dada cuja garantia de seu cumprimento era avalizada pelo fio do bigode, a virgindade e o recato femininos, a honra composta pelos atribuitos que constituíam o que se denominava “pessoa de bem”, etc.) com os quais suas personagens se identificavam conscientemente; ignorando completamente – fazendo questão absoluta de ignorar e, com veemência, negar -, porém, todos as suas dimensões desejantes (fossem o mais sublime amor proibido ou a mais cabeluda perversão), que permaneciam arrochadas em seus universos interiores.
Nesse sentido, característica marcante da obra de NR era esse eterno embate entre estas duas dimensões, conflito muitas vezes descrito em suas personagens através não apenas da violência da irrupção daquilo que era reprimido, mas também através de torturantes angústias e sentimentos de culpa, quando estes conteúdos ameaçavam irromper à consciência .
Os tempos atuais, todavia, são outros: hoje grande parte das famílias possui uma estrutura diferente daquela de uma certa classe-média de décadas atrás, estrutura atual na qual convivem no mesmo espaço a mãe, o segundo marido, os filhos dela com o primeiro marido, mais os filhos com o segundo; são inúmeras as possibilidades combinatórias de novas estruturas familiares, devendo ser inclusive acrescido o fato de termos agora, também, núcleos familiares a partir de casais homossexuais tanto masculinos quanto femininos, com ou sem a adoção de filhos ou, ainda, através das diversas estratégias de produção independente.
Hoje, longe de uma estruturação psíquica alicerçada sobre a então valorizada – e heróica… – capacidade de se adiar eternamento os desejos ou então com tudo auto-reprimi-los, a ordem coletiva dá mostras de valorizar exatamente o contrário. Assim, se nos tempos daquela classe-média moralista que serve de cenário às obras de NR, o esperado era que um pai dissesse algo assim como “meu filho, eu tive que trabalhar duro até poder comprar meu primeiro automóvel aos 50 anos de idade”, atualmente a publicidade usa e abusa da expressão “você merece”: “você merece” [adquirir IMEDIATAMENTE] este apartamento, este carro, esta viagem ao exterior, este celular carézimo e assim sucessivamete. Afora outras transformações, como as conquistas – pelo menos até certo ponto – femininas e, em acréscimo, toda uma re-conceituação do que viria a ser considerado, hoje em dia, “masculino” ou “feminino”.
Em que pese todas as alterações que tivemos daquele antigo modo de estruturação de subjetividades, até chegarmos aos modos atuais, NR e suas personagens estariam hoje mortos em termos de significado? Diria que não, por dois motivos. O primeiro é que, embora aquele modo de subjetivação de meio século atrás tenha sido suplantado por outros, isso não impede que ele continue não apenas existindo como, além disso, ainda bastante presente em grandes bolsões coletivos – e uma única viagem de Metrô entre a Zona Oeste e a Zona Leste em São Paulo no horário de pico, com os ouvidos atentos aos diálogos ao redor, é suficiente para se constatar que aquele modo arcaico e tradicional de subjetivação, ainda pulsa largamente. O segundo motivo é que, nos contextos em que aquele antigo modelo de subjetivação foi substituído por outros mais atuais, isso não impede que milhões de pessoas estejam mergulhadas em angustiantes dramas, conflitos e sofrimentos interiores, gerados exatamente por estes novos modelos. Tentarei escrever algo a esse respeito, num próximo post. Por enquanto, lanço a sementinha da dúvida: como seriam atualmente as “engraçadinhas” de Nelson Rodrigues? Qual seria o equivalente atual daqueles seus maridos e homens “de bem”, eternamente angustiados por não correspoderem aos ideais rígidos de sua época? Será que os novos ideais também não seriam tão rígidos quanto torturantes? Como seriam estes novos ideais e como seriam socialmente percebidos, hoje em dia, os que ousassem afrontá-los? E agora, a cereja do bolo: como seria a versão atualizada dessas personagens rodrigueanas se fossem paulistanas ao invés de cariocas?

Sobre as Engraçadinhas do Século XXI, não parei pra pensar, mas acho, em relação a este casal… cada um agiu em legítima defesa!
(passei por aqui para inaugurar oficialmente os comentários)