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João Baptista Soares de Faria Lago
Há muitos anos atrás, ao ler a Ethica de Spinoza, filósofo luso-holandês do século XVII, deparei-me com um termo que, nos anos seguintes, jamais abandonaria meus circuitos mnemônicos, em decorrência da grande quantidade de situações que, inevitavelmente, me levavam a relembrá-lo: estupidez sapiente. As muitas situações que faziam com que este termo reaflorasse com todo o seu esplendor em minhas recordações, é importante frisar, eram vividas sobretudo nos anos de minha formação acadêmica, envolvendo minha graduação, mestrado e doutorado. Nestas situações, me chamava a atenção algo que parecia ser uma espécie de sub-produto da estupidez sapiente: o pedantismo, sobre o qual me arriscarei aqui a tecer algumas elocubrações. Pedantismo que, longe de ser a exceção, era a regra quotidiana; pedantismo que, além de admiração, gerava notas e créditos acadêmicos, alavancava reputações e rendia pareceres favoráveis a publicações, além de outros benefícios.
Entretanto, antes de prosseguir e para efeitos didáticos em relação a quem lê estas linhas, gostaria de definir, de um modo bem simples e até mesmo coloquial (por favor: coloquial apenas neste parágrafo, já que também tenho lá minha dose de pedantismo, de forma que utilizarei uma linguagem mais distinta, nos parágrafos seguintes), o que se passa pela minha cabeça, em relação ao termo pedante, no contexto deste post. Pedante é, digamos assim, quando você se depara com uma ou mais pessoas num contexto acadêmico, utilizando um palavreado complicado e empolado, geralmente pouco inteligível, para tentar explicar fatos, fenômenos e processos da realidade, que poderiam ser muito bem explicados, através de um discurso e de uma linguagem mais simples e, principalmente, fácil de entender a qualquer mortal regularmente matriculado. É utilizado de um modo mais intenso, principalmente, por seres acadêmicos que possuem uma fixação patológica numa determinada teoria à qual costumam aderir com o mesmo fanatismo de alguém que, depois de ir parar “no fundo do poço”, adere ferozmente à seita religiosa que o salvou da perdição. Não é recomendável nesse sentido convidar dois pedantes dogmáticos para a mesma mesa de bar, pois o espetáculo poderá ser análogo ao de uma briga de galo, com um tentando desesperadamente desqualificar o discurso do outro, até a morte. Além dos aspectos que mencionarei nos parágrafos seguintes, uma outra característica do pedantismo é servir de instrumento fálico, de auto-afirmação intelectual. No meio acadêmico, diria que personalidades fálicas, quer se trate de machões ou de mulheres histéricas, amam o pedantismo, visto ser este último um instrumento valioso para a obtenção de seu intento: ter os holofotes da platéia convergidos para si. E, gozo supremo, a aprovação do mestre (na mesma proporção em que este justamente não aprovaria os demais colegas, por não conseguirem ser tão pedantes quanto); caso em que este inconscientemente estaria ocupando, na psique do(a) pedante, o lugar de um pai ou uma mãe que estaria lhe dando preferência, ao passo que ignorando os outros irmãos. Enfim: para explicar coisas que poderiam ser ditas através de palavras e frases muito simples e que qualquer um entenderia, os pedantes articulam todo um complexo e ininteligível discurso repleto de palavras e termos tão esquisitos quanto herméticos, fazendo uma tremenda duma pose.
Deixando agora o discurso coloquial, por que o pedantismo possuía e possui, uma importância tão relevante em nossa vida acadêmica? Antes de mais nada, diria que as caracteríscas destas e daquelas formas de pedantismo seriam como uma espécie de ethos e atribuiriam, ao seu “portador”, o status não apenas de pertencerem e partilharem, dos valores e características de uma determinada panelinha teórico/intelectual em qualquer um dos campos do saber mas, também, o seu posicionamento hierárquico: a princípio, quanto mais pedantemente estiver articulado o discurso, maior tende a ser o status do emissor do palavrório. E, numa manifestação ainda mais refinada de pedantismo, sinalizar através de sua linguagem que, além de pertencer a uma determinada corrente teórica, seria membro de uma das panelinhas que a representam. Assim o discurso pedante, longe de privilegiar o conteúdo, privilegia, mais que qualquer outra coisa, a forma, acarretando duas conseqüências típicas: em primeiro lugar, um aumento considerável no tamanho do discurso, pois, quanto mais clichês linguageiros possuir, mais estará privilegiando a forma. E, em segundo lugar, um empobrecimento muito grande da própria explicação em si, já que o importante aí é demonstrar a maior quantidade possível de estereótipos discursivos e não, uma maior qualidade de explicitação do real.
O discurso pedante, desta forma, não seria apenas um conjunto de afirmações e tentativas de explicação/explicitação da realidade, através de uma linguagem geralmente incompreensível aos não-pertencentes à sua filiação teórica (posto tratar-se de uma linguagem, por assim analogamente dizer, “criptografada”). Porque, além de sua característica de ininteligibilidade discursiva, o pedantismo também possuiria embutido um aspecto de exclusão, já que ficariam de fora todos os que não conseguissem compreender o referido discurso pedante, isto é: todos os não-integrantes da vertente teórica e/ou da panelinha na qual tal discurso estereotipado foi gerado. Porém, ao mesmo tempo que exclui, o discurso pedante também inclui quem o pratica, habilitando-o a ser considerado, perante uma platéia de leitores e/ou de ouvintes, membro digno de pertencimento, à referida panelinha geradora do discurso. Mas não são apenas os não-integrandes da panelinha ou vertente teórica, que ficariam excluídos. Pois o discurso pedante, ao privilegiar sobretudo a forma em detrimento do conteúdo, termina por excluir, mais que qualquer outra coisa, a própria compreensão dos fatos e processos que pretende explicar/explicitar.
Uma última observação no tocante ao pedantismo, diz respeito à sua intensidade, no Brasil e nos assim chamados “países de Primeiro Mundo”. Em comum, temos o fato de que o pedantismo é universal. No caso das instituições acadêmicas brasileiras, todavia, há algo a ser acrescido: nosso “complexo de vira-lata” (para me valer da expressão cunhada por Nelson Rodrigues) nos levaria a exacerbar ainda mais o pedantismo, no caso em que este for importado de alguma das nossas Metrópoles de Ultramar. Assim, mais que o perteencer a uma determinada corrente teórica, o pedantismo também traria embutido, em seu discurso, uma necessidade de indicar que seríamos seres pertencentes ao “Primeiro Mundo”. Essa necessidade, ao privilegiar ainda mais intensamente características da forma do discurso pedante, em detrimento de seu conteúdo, faria com que o nosso pedantismo consiga ser, muitas vezes, mais pedante que nos países ditos avançados, onde esse discurso foi inicialmente gerado, com repercussões em dois grandes grupos de discursos pedantes dominantes: aqueles que se utilizam do discurso cientificista, mais antenados sobretudo com as tendências academicistas norte-americanas, de um lado, e aqueles que se utilizam de um discurso por assim dizer mais filosófico, por parte dos que mais se identificam a correntes européias.